sábado, 24 de outubro de 2009

Narrando o acaso

Parte I - O dia que nos encontramos.



Foi puro acaso. Não poderia ser diferente comigo. As coisas acontecem assim, de repente e pronto. Normalmente eu agarro as oportunidades, mesmo sabendo que vez ou outra é vital descartá-las.



Enfim, no dia em que nos encontramos por puro acaso acho que você não me notou de pronto. Diferentemente de mim, que te notei a distância. Não tinha nada a ver com olhos, corpos ou bocas, embora hoje seu sorriso me inebrie. Acho que tinha mesmo a ver com a sua presença de vida. Seu jeito de não conversar direito com a pessoa sentada ao seu lado, apenas respondendo aos apelos de atenção vindos dela. Rindo meio sozinho, despreocupado com o compromisso da sala ao lado. Eu te notei porque você era diferente daquilo que eu sempre via naquele corredor. Você era a novidade e mesmo que tantos outros também fossem, você ainda assim era digno de ser notável.



E foi neste dia do encontro por acaso, que dei um jeito para que você me notasse. Me aproximei em passos descompromissados, aproveitando da minha espera para observar mais atentamente detalhes de um conjunto interessante. Perguntei meio ao nada sobre as próximas notícias. Aproveitei de um assunto que se acomodou diretamente na minha percepção.



Boas novas! Você estava onde eu estive. Onde tive tanto orgulho de estar. Compartilhei. Então você me notou. Acho que foi neste momento que você me notou.




Parte II - O dia em que pensei em você.


Eu não esperava que fosse acontecer. Eu tinha apenas te notado. Poderia ter se diluído alí. Curiosamente alguma coisa coagulou e chegou o dia em que eu pensei em você.



Lembrei que tinha te encontrado por acaso e que tinha te notado. Fiquei buscando evidências para garantir-me que você também tinha me notado. Eu realmente gostaria que isso tivesse acontecido.




Parte III - O dia em que nos deixamos passar.



Nós chegamos juntos - que eu eu vi. Sou observadora e isso me traz muitos benefícios. Aproveitei do jogo e fiz que não reparei, de modo que segurar a expressão de contentamento ficava cada vez mais intolerável.



O primeiro cruzar de olhos foi simples e sem muita euforia. Desta vez foi você quem se aproximou. Não me vanglorio disto, pois eu fiquei estratégicamente posicionada. Você teria que passar por ali. Você teria que cruzar olhares comigo. E eu, claro, faria de tudo, expressaria com todo o meu corpo a necessidade de um cumprimento seu.


E foi assim. Três cumprimentos. Como se fossem a primeira vez. Cada retomada sua para o meu local estratégico, um novo cumprimento.



Então passamos do "Oi, tudo bem" duas vezes. Foram no total cinco encontros sem acaso. Numa delas você me disse algo sobre meu local estratégico. Noutra eu te disse sobre o seu local. Eu me ocupei de te observar e desenhar palavras com meu corpo por meio dos sons. Você eu não sei do que se ocupou, mas confesse: tentou decifrar minhas palavras uma porção de vezes.



Os sons terminaram. Minhas palavras cessaram e você já não estava mais onde ficou desde o nosso segundo acaso. - Chegamos juntos -



E foi assim que nos deixamos passar.





Parte IV - O dia em que eu evitaria te encontrar.



Seria o próximo depois dos sonos, se o acaso não fosse o nosso parceiro. E, novamente por ele, lá estávamos nós: frente a frente, sem cálculos, sem planos, sem estratégias. Por puro acaso, neste dia você foi meu primeiro encontro. Então me desviei, não porque preferisse te evitar totalmente, foi um plano para conseguir te encontrar de frente.


E de frente ficamos. Piscadelas, nosso sinal preferido. Foi assim aquele outro dia. Aproximei daquilo que tira o folego e pude sentir a aspereza deliciosa do seu rosto. Notei meu atraso e sai. Olhei para traz te buscando com soslaio e você continuava lá, e já não sei se por acaso, mas também me procurava por cima dos ombros.



Parte V - O dia em que confessei.


Confessei para mim mesma que estava adorando o acaso participar da minha vida. Isso aconteceu naquele dia em que o calor não permitia que cérebros funcionassem corretamente e eu estava dentro do carro esperando sem pressa que o semáforo trocasse o vermelho 'intenso-calor-pare' para o verde 'alívio-pode-passar'.


E enquanto tocava uma música internacional qualquer, com uma melodia gostosa e com uma letra indescifrável, eu sorri. Sorri sozinha. O que não deveria me espantar, visto que eu sempre me deparo sorrindo sozinha, como agora. Mas naquele calor que nos priva de pensar, com uma música que sequer sei do que fala, sorrir sozinha quando ameaço reviver a aspereza do seu rosto....


Aí, eu confessei: acho, meu bem... que não quero apenas as providências do acaso.

Parte VI - Continua...

domingo, 18 de outubro de 2009

Considerações

Então a gente passa por um turbilhão de coisas. A gente chega ao ápice e cai. Levanta-se, mas ainda tem marcas da queda. E não é tão fácil sair do turbilhão sem ficar zonza.

De certa forma a gente se agarra em qualquer pedaço de coisa que pareça fixa e tenta se equilibrar da tonteira inexplicável. Daí a tontura passa, a gente olha para o que passou e se sente forte por sobreviver.

Parece loucura quando voltamos o álbum e aquelas fotos tão coloridas e vívidas já perderam o brilho e sequer é possível discernir o contorno do nosso rosto. Impressão digital da mais barata.

O curioso é que depois de ter se agarrado em coisas fixas, a gente nota que nada é tão fixo assim e que a única maneira que te fez equilibrar foi seus próprios pés no chão.

Em pensar que houve um dia em que desejei ser alguém sem passado. Admito que não seja orgulhoso apresentá-lo sempre, mas reconheço sua função. De certa forma, ser alguém com passado é o que preconizaria ser alguém com um grande futuro.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

No meio

Um dia me perguntaram se eu escrevo no blog só quando eu estou triste. Respondi que não, que eu escrevia em outras oportunidades também. Como essa por exemplo, onde eu não estou triste mas também não estou feliz.


O meio termo. O morno. Aquilo que tantas e tantas vezes enchi a boca para dizer odiar. Odeio o meio termo!! Mentira! Eu gosto. Talvez eu odiasse por pura inveja de nunca ter estado em equilíbrio. O meio termo é bom. É a dose certa entre razão e mania. A medida, sabe?


Do meu meio termo, consigo olhar para os dois lados e posso mudar algum deles. Reconheço aquilo que me falta e agradeço aquilo que tenho. O meio termo é bom. É a receita com o pulo do gato.


Ontem eu estava em mania. Exageramente acima das minhas possibilidades. Com o jardim todo em minhas mãos. Estava ótimo. Até o momento em que três flores secaram ao mesmo tempo. Três seguidas não são nada quando já se viu mais de dez flores morrerem num dia só. Então recuei, voltei para o meio termo. Senti a perda, não gostei. Em todo caso, tento e peço novas flores para o jardim.


Elas podem demorar a vir, eu sei. Talvez porque eu ainda não saiba exatamente como plantá-las ou como mantê-las vivas. Talvez minhas flores não sobrevivam por excesso de água. Ou pode ter sido aquele dia em que não reguei por pura preguiça. Por enquanto elas tem morrido cedo, mas daqui do meio termo, fica bem mais fácil de afofar a terra.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Não é de todo mal

Mulheres e suas roupas. Quem nunca presenciou ou viveu a pura 'certeza' que mesmo com o armário lotado, não tinha roupas para usar? Mulheres são assim. E como uma mulher que se preze, Thereza também é.

Abre seu amário e roupas pulam porta afora. Por dois motivos em especial: pela bagunça e pela quantidade.

Thereza tinha uma roupa em especial. Uma peça linda. Ela tinha usado muito há numa época atrás. Aquele modelo lhe caía bem demais. Caía: passado. Fazia um tempo que aquela peça já não fazia parte do seu vestuário rotineiro. Nunca mais usou.

Vez em quando, na falta de outras que também ficavam boa, Thereza tirava a peça do armário e lamuriava suas mudanças corporais. Era culpa toda dela, aquela roupa não fazer mais parte da sua vida. Logo aquela roupa, a que ela jurava de pés juntos, ser a mais especial.

Como se sabe, Thereza não é de ficar muito tempo no mesmo parágrafo e logo tratava de guardar a peça novamente na bagunça do seu armário.
Virava e mexia, pegava a peça. "Minha roupa mais especial. Nunca outra me caiu tão bem... Burra fui eu de ter perdido." - choramingava Thereza.


Guardava com esperanças de um dia tê-la de volta em seu corpo. Cobrindo-lhe a pele, arrancado elogios por onde passar.

Dia desses, sentiu-se completamente nua. Como mágica, todas as suas roupas haviam sumido diante de seus olhos. Menos aquela. Thereza tinha certeza que aquela era a única peça que sobreviveria a todos os tempos.

Tomou coragem para experimentar. Serviu e curiosamente, Thereza não se sentia bem. Acabou de perceber que tal peça não tinha mais o seu estilo. Ela havia mudado e a peça tinha continuado exatamente a mesma. Fechou os olhos e deixou dançar pelo rosto gotas preciosas.

Despiu-se. Doou a peça. Vai encontrar outras que lhe cairão bem. E em todo caso, estar nua não era de todo mal.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

3min22 seg

Então basta uma música apresentar os primeiros acordes e ela chega até o ápice de sua imaginação. Sua pura imaginação sem arreios, apenas anseios.

Apenas anseios é pouco demais para quem gosta de tanto. Demais. Sempre. Muito. Amo. Exalto. Superlativa-se. E sobre o seu subir, sofre delirando.

De certa forma esse transpor é bem confortável, a não ser pelo fato da música terminar.

** o título do post é o tempo da música Just my Imagination - The Cranberries **

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